O artigo History of the Concept of Tuberculous Meningitis*, Olivier Walusinski e co autores produzem uma revisĂŁo desde a origem da doença e aprofundam-se atĂ© a evolução dos critĂ©rios diagnĂłsticos em tempos atuais. Para analisar a relevĂąncia da pesquisa e dos achados, o ABNews entrevista um convidado especial: Ylmar CorrĂȘa Neto, professor associado da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador do Departamento CientĂfico de HistĂłria da Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia.
Apesar de ser uma desordem infecciosa muito antiga, ainda Ă© encontrada em nossa realidade. Quais os desafios e barreiras para o diagnĂłstico?
Uma revisĂŁo recente estima que 2 a 5% dos 10 milhĂ”es de casos novos de tuberculose no mundo tenham envolvimento das meninges, especialmente em crianças e pessoas com HIV[1]. A descrição por Walusinski da histĂłria da evolução do conceito de meningite tuberculosa espelha as dificuldades do diagnĂłstico clĂnico. Olivier Walusinski, mĂ©dico na pequena cidade de Brou, com cerca de 3500 habitantes no centro da França, tornou-se o principal autor contemporĂąneo da histĂłria da neurologia francesa do sĂ©culo XIX chegando a receber o PrĂȘmio de HistĂłria da Medicina da Academia Nacional de Medicina francesa em 2020, por um livro sobre a participação de Charcot em bancas de doutoramento.
Como pode ser observado no artigo, inicialmente os casos descritos se apresentavam por alteração da consciĂȘncia e a necropsia mostrava hidrocefalia. Apenas posteriormente, arreflexia pupilar e o envolvimento de outros nervos cranianos foram observados e o espessamento da meninge inflamada descrito. A identificação completa da doença demorou sĂ©culos e os sintomas relacionados foram lentamente descritos. Assim, tal qual a delimitação histĂłrica de entidade, o diagnĂłstico clinico precoce ainda Ă© retardado. Koch identificou o bacilo apenas em 1882 e Quincke introduziu a punção lombar apenas em
1891 permitindo estudos diagnĂłsticos in vivo [2].
Quando suspeitar desta condição? Quais são as formas de apresentação da tuberculose no sistema nervoso central além da meningite?
Algumas tentativas de estabelecer critĂ©rios para diagnĂłstico precoce, incluindo o exame do lĂquido cefalorraquidiano, neuroimagem e manifestaçÔes clĂnicas, foram desenvolvidas. Do ponto de vista exclusivamente clĂnico, duração dos sintomas por tempo maior que cinco dias, sintomas sistĂȘmicos sugestivos de tuberculose como emagrecimento, sudorese noturna e tosse por mais de duas semanas, paralisia de nervos cranianos, outras alteraçÔes neurolĂłgicas focais e alteração de consciĂȘncia sĂŁo sugestivos de meningite tuberculosa [3). AlĂ©m da meningite tuberculosa, tuberculomas, abscessos tuberculosos e acometimento intra e extradural espinhal sĂŁo descritos [4.]
A pesquisa dos sinais menĂngeos Ă© utilizada na avaliação clĂnica de pacientes com suspeita de meningite. No entanto, os autores pontuam que os sinais de Kernig e Brudzinski tĂȘm sensibilidade de 5% e especificidade de 95%.
Qual o impacto para a neurologia clĂnica?
Walusinski cita uma revisĂŁo de 2016 [5], que por sua vez cita um artigo de 2002, de meningites em adultos (cerca de 2% com criptococose e nenhum caso de tuberculose) [6], ou seja, pouco relacionado com meningite tuberculosa. Nos Ășltimos vinte anos muito se tem avançado no exame neurolĂłgico baseado em evidĂȘncias, visando uma escolha racional das manobras utilizadas. Infelizmente nĂŁo se tem dados especĂficos sobre a meningite tuberculosa. A sensibilidade da rigidez de nuca na meningite tuberculosa varia de 91 a 98% [7,8], mas poucos sĂŁo os dados sobre as manobras descritas pelo lituano Kernig ou pelo pediatra polonĂȘs Brudzinski [9]. Em 1882, Kernig descreveu resistĂȘncia Ă extensĂŁo da perna com o paciente deitado com coxas e joelhos flexionados. Na descrição original, o autor jĂĄ salientava maior sensibilidade com o paciente sentado, manobra pouco realizada atualmente. Em 1909 Brudzinski descreveu o sinal de flexĂŁo do quadril e joelhos quando da flexĂŁo do pescoço da criança deitada com a mĂŁo esquerda, enquanto a mĂŁo direita segura o tĂłrax impedindo que a mesma se levante 5,9l. RevisĂŁo sistemĂĄtica recente mostra razĂŁo de probabilidade de pleocitose no lĂquido cefalorraquidiano em meningites em geral de 2,52 na rigidez de nuca, 2,37 no sinal de Kernig e 2,91 no sinal de Brudzinsk [[10]. Assim, os sinais descritos por Kernig e Brudzinski nĂŁo seriam apenas “poeira de sinais”, termo utilizado pelo Professor Octavio da Silveira, iniciador da neurologia no ParanĂĄ, para nomear achados obscuros e pouco significativos, mas poderiam auxiliar na certeza dos achados semiolĂłgicos em pacientes com rigidez de nuca, pouco auxiliando quando utilizados como rastreio.
Qual a principal contribuição do artigo avaliado?
O estudo da histĂłria das doenças de uma forma geral; como foram descritas, como a etiologia foi identificada, como os critĂ©rios diagnĂłsticos evoluĂram, Ă© muito interessante porque muitas vezes espelha os dilemas do diagnĂłstico diferencial. No caso da meningite tuberculosa isto Ă© muito claro. Os primeiros casos descritos eram sempre avançados, com hidrocefalia e suas manifestaçÔes. Posteriormente, o acometimento dos nervos cranianos foi sendo descrito no inĂcio do quadro clĂnico, alĂ©m da associação com sintomas de tuberculose em outros ĂłrgĂŁos. Os indicadores atuais de meningite tuberculosa, doença que vitimou Modigliani, demonstram isto, com cefaleia prolongada, envolvimento de pares cranianos e tuberculose em outros ĂłrgĂŁos como principais achados.
REFERĂNCIAS
*https://www.karger.com/Article/FullText/512468
- Walusinski O: History of the Concept of Tuberculous Meningitis. Eur Neurol 2021; 84:61-70
- Huynh et al: Tuberculous meningitis: progress and remaining questions. Lancet Neurol 2022; 21: 450-64
- Sulaiman et al: The diagnostic utility of the “Thwaites’ system” and “lancet consensus scoring system” in tuberculous vs. non-tuberculous subacute and chronic meningitis: multicenter analysis of 395 adult patients. BMC Infectious Diseases2020:20: 788-98
- Schaller et al: Central Nervous System Tuberculosis: Etiology, Clinical Manifestations and Neuroradiological Features. Clin Neuroradiol 2019:29:3-18
- Forgie SE: The History and Current Relevance of the Eponymous Signs of Meningitis. The Pediatric Infectious Disease Jornal 2016; 35:749-51
- Thomas et al: The Diagnostic Accuracy of Kernig’s Sign, Brudzinski’s Sign, and Nuchal Rigidity in Adults with Suspected Meningitis. Clinical Infectious Diseases 2002: 35:46-52
- Thwaites et al: Diagnosis of adult tuberculous meningitis by use of clinical and laboratory features. Lancet 2002; 360:1287-92
- van Well et al: Twenty Years of Pediatric Tuberculous Meningitis: A Retrospective Cohort Study in the Western Cape of South Africa. Pediatrics 2009:123:e1-8
- Ward et al: Josef Brudzinski and Vladimir Mikhailovich Kernig: Signs for Diagnosing Meningitis. Clinical Medicine & Research 2010: 8:13-17
- Akaishi et al: Sensitivity and specificity of meningeal signs in patients with meningitis. J Gen Fam Med. 2019:20:193-198






