O paper Trial of Sodium PhenylbutyrateâTaurursodiol for Amyotrophic Lateral Sclerosis (https://bit.ly/3s8uim8) abarca resultados em declĂnio funcional comparados ao placebo, medido pelo escore ALSFRS-R ao longo de 24 semanas. Pontua que ensaios mais robustos e longos sĂŁo necessĂĄrios para avaliar a eficĂĄcia e segurança em pacientes com ELA. Para analisar o estudo e comentar novidades relacionadas, ouvimos o coordenador do DC de Doenças do NeurĂŽnio Motor/ELA e professor associado em Neurologia da Universidade Federal do CearĂĄ, Francisco de Assis Aquino Gondim.
Qual o mecanismo de ação dos compostos fenilbutirato e taurursodiol em pacientes com Esclerose Lateral AmiotrĂłfica (ELA)? Que regime de administração do fenilbutirato e taurursodiol foi base do ensaio clĂnico?
O fenilbutirato de sĂłdio Ă© um inibidor da deacetilase de histonas que regula positivamente proteĂnas do tipo heat shock, tambĂ©m agindo como uma chaperona de baixo peso molecular, melhorando a toxicidade do estresse no retĂculo endoplasmĂĄtico.
O taurursodiol recupera dĂ©ficits bioenergĂ©ticos mitocondriais por mĂșltiplos mecanismos, incluindo pela prevenção da translocação da proteĂna Bax dentro da membrana mitocondrial, reduzindo a permeabilidade mitocondrial e aumentando o limiar apoptĂłtico da cĂ©lula.
No ensaio clĂnico CENTAUR, a dose de fenilbutirato de sĂłdio era de 3g e 1g de taurursodiol por sachet administrado oralmente ou por gastrostomia durante 24 semanas. Nas primeiras 3 semanas, eles tomavam um sachet ao dia e posteriormente duas vezes ao dia atĂ© 24 semanas. Cada sachet irĂĄ disperso como pĂł em ĂĄgua, sendo o gosto e formulação igual entre a medicação e o placebo. Os pacientes poderiam estar fazendo uso de riluzol em dose estĂĄvel por pelo menos 30 dias ou atĂ© mesmo edaravone.
Em que fase se encontra esse ensaio clĂnico?
O chamado estudo âCentaurâ (Centauro) Ă© um estudo de fase 2, randomizado, placebo-controle, em 25 centros americanos, criado para avaliar a segurança e eficĂĄcia de uma co-formulação oral de fenilbutirato e taurursodiol (PB-TURSO) no tratamento de pacientes com ELA. Ele foi concluĂdo em setembro de 2019 e publicado no jornal New England Journal of Medicine em setembro de 2020. SĂł foram estudados pacientes com ELA definitiva e diagnosticados em atĂ© 18 meses.
Um total inicial de 177 potenciais participantes foi avaliado, sendo que um total de 137 foram considerados aptos para o estudo, sendo 89 alocados no grupo de tratamento com fenilbutirato e taurursodiol e 48 ao tratamento com placebo.
Como avalia os desfechos monitorados desse ensaio clĂnico?
Os desfechos incluĂam 1. PrimĂĄrio: taxa de declĂnio no escore total da ALSFRS-R (Escala Revisada da Gradação Funcional da ELA); SecundĂĄrios: 2. Taxa de declĂnio na força muscular isomĂ©trica medida pelo ATLIS; 3. Taxa de declĂnio nos nĂveis plasmĂĄticos da subunidade H do neurofilamento axonal fosforilado. 4. Capacidade Vital por Espirometria; 5. Tempo para morte, traqueostomia, ventilação assistida permanente ou hospitalização.
Em sua OpiniĂŁo, quais os principais resultados?
Tivemos 69% dos pacientes tratados com a medicação e 77% dos tratados com placebo terminaram o estudo. Quase o dobro dos pacientes do grupo controle estavam fazendo uso de edaravone ou edaravone+riluzol em relação ao grupo tratado, que tambĂ©m incluiu um maior nĂșmero de pacientes com ELA bulbar. Apesar disso, houve uma diferença favorĂĄvel para o grupo tratado com a combinação da medicação com valor de 0.42 pontos por mĂȘs, P=0.03, IC: 0.03-0.81. Na anĂĄlise de sensibilidade com correção para edaravone, houve uma diferença favorĂĄvel de 2.15 pontos da escala de ALSFRS-R apĂłs 24 semanas no grupo tratado com edaravone e de 2.34 pontos no grupo tratado concomitantemente com riluzol. Uma grande quantidade de voluntĂĄrios tratados com a combinação das medicaçÔes ou placebo apresentaram efeitos colaterais leves (96-97%).
A conclusão que podemos tirar do potencial dessa medicação no tratamento da ELA?
A combinação de fenilbutirato e taurursodiol parece lentificar a taxa de declĂnio funcional em pacientes com ELA, documentada pela redução do declĂnio no escore total da escala ALSFRS-R, havendo uma diferença de 2,32 pontos apĂłs 24 semanas de tratamento. Apesar disso, os desfechos secundĂĄrios nĂŁo foram significativamente modificados. Como um todo, os resultados sĂŁo promissores, apesar de questionamentos sobre o real significado (valores clinicamente relevantes) de alteraçÔes nos valores na escla ALSFRS-R ao invĂ©s de medidas de sobrevida, que envolvem a necessidade de inclusĂŁo de um maior nĂșmero de pacientes. Em tempo, gostaria de destacar que em janeiro de 2021, foi publicado novo estudo (Paganoni et al. Muscle Nerve 2021;63:31-9) avaliando a sobrevida Ă longo prazo dos pacientes do estudo CENTAUR. Nesse estudo, foi dada a opção de todos os pacientes do estudo CENTAUR receberem a combinação PB-TURSO por atĂ© 30 meses apĂłs a finalização do estudo inicial. Nesse novo estudo, os pacientes inicialmente tratados com a combinação PB-TURSO no estudo CENTAUR apresentaram uma sobrevida mĂ©dia de 6.5 meses superior aos pacientes inicialmente tratados com a medicação placebo. Tais achados demonstram que alĂ©m de melhora funcional, a combinação com os 2 fĂĄrmacos (PB-TURSO) parece tambĂ©m aumentar a sobrevida dos pacientes com ELA. Apesar da necessidades de novos ensaios clĂnicos com maior nĂșmero de pacientes e maior duração do tratamento para sabermos a real eficĂĄcia da combinação de fĂĄrmacos, certamente os resultados sĂŁo um novo alento para os pacientes com ELA. Os resultados abrem o espaço para novas possibilidades terapĂȘuticas nos prĂłximos anos.






