O tĂtulo deste texto nĂŁo poderia ser outro. Acary Souza Bulle Oliveira, neurologista, e Haruki Murakami, autor de Do que eu falo quando eu falo de corrida, tĂȘm muito em comum. CĂ©lebres em suas ĂĄreas de atuação, mĂ©dico e escritor compartilham a paixĂŁo pelos pĂ©s em movimento.
Nas palavras do japonĂȘs, âpara lidar com algo insalubre, a pessoa tem de ser o mais saudĂĄvel possĂvelâ. O dr. Acary sabe bem disso. Ă a corrida â e a conexĂŁo com o meio ambiente proporcionada por ela â o que permite que o especialista mantenha corpo e mente sĂŁos para lidar com os desafios da Neurologia, seja no consultĂłrio ou na vida acadĂȘmica.
Natural de Monte Azul Paulista, interior do estado de SĂŁo Paulo, o dr. Acary, que por pouco nĂŁo se tornou obstetra, fez a graduação (1981), o mestrado (1988) e o doutorado (1990) em Neurologia na Universidade Federal de SĂŁo Paulo (UNIFESP), alĂ©m de pĂłs-doutorado na Universidade Columbia, em Nova York. Atualmente, coordena o Setor de Investigação em Doenças Musculares da UNIFESP, atuando em campos como dor, sĂndrome pĂłs-Poliomielite, antroposofia, mĂșsculo e doença neuromuscular.
Foi agraciado, em 2021, com o TrofĂ©u Coruja de Ouro, concedido pela ABN a neurologistas que tenham contribuĂdo para o desenvolvimento e o engrandecimento da especialidade em todo o Brasil, em qualquer de suas vertentes. A seguir, conheça a trajetĂłria esportiva de um dos nossos pioneiros.
ĂRVORE, MACACO, PEIXE
Nomes nĂŁo sĂŁo dados por acaso. O significado de âAcaryâ, do tupi acari, estĂĄ ligado Ă quilo que ele ama: a natureza. Pode popularmente designar uma ĂĄrvore, a acariquara; um macaco encontrado nas florestas alagadas do noroeste da AmazĂŽnia, que ainda leva a alcunha de cacajau; ou o peixe tambĂ©m conhecido como cascudo.
O menino com nome de vida, sempre descalço, cresceu em um sĂtio sem ĂĄgua encanada ou luz, junto com seus sete irmĂŁos, sob uma rotina intensa desde o despertar, Ă s cinco da manhĂŁ. Caminhar era como respirar. âNa minha infĂąnciaâ, conta, âo andar nĂŁo era meramente andar, mas sim estar conectado com a terra, com o ar, com os animais, com os vegetais, com o tempo – era estar em verdadeira sintonia com o mundo. Guardo lembranças doces dessa Ă©pocaâ.
Adolescente, veio morar em SĂŁo Paulo, onde descobriu o basquete no Clube Esportivo Joerg Bruder, no bairro Santo Amaro. Percebeu ali que a resistĂȘncia era uma de suas maiores qualidades nos esportes. Mais tarde, jĂĄ estudante da Escola Paulista de Medicina, que anos depois o receberia como professor, ingressou na Associação AtlĂ©tica AcadĂȘmica Pereira Barretto. Embora tenha, a princĂpio, se interessado pelo vĂŽlei, foi atravĂ©s de DamiĂŁo, tĂ©cnico do time da EPM, que se encontrou, enfim, na corrida.
Por ser mais resistente do que veloz, o jovem foi estimulado a disputar as provas de maior quilometragem. ApĂłs as de 5.000 metros e 10.000 metros, o dr. Acary chegou Ă s maratonas. Era 1982. A partir daquele momento, elas se tornaram parte de sua existĂȘncia. âHobby, essa palavra nĂŁo Ă© comigo. A corrida nĂŁo Ă© um passatempo ou uma distração para mim, Ă© algo intrĂnseco aos meus dias. Gosto de acordar e correr, me conectando com o que me rodeia.â
Ele planejava retornar a sua terra natal, onde eram raros os especialistas no cĂ©rebro, mas havia uma pedra no meio do caminho. Ăs vĂ©speras do casamento, sua entĂŁo noiva bateu o martelo: âAcary, eu gosto muito de vocĂȘ, mas nĂŁo a ponto de me mudar para cĂĄâ. Estabelecido na capital, ele fincou raĂzes no Hospital SĂŁo Paulo, no Hospital Cruz Verde, na UNIFESP e em seu Setor de Investigação de Doenças Neuromusculares.
INESQUECĂVEL
âNo começo, as provas nas cidades nĂŁo eram muitas. O pedestrianismo ganhou corpo pouco a pouco. Eu chegava a ser xingado nas corridas de rua, mas testemunhei a chegada de cada vez mais gente indo treinar no Parque do Ibirapuera. Mulheres, que antes quase nĂŁo havia, passaram a ocupar aqueles espaços tambĂ©m.â
As corridas se revelaram ainda uma forma de se aventurar nas urbes. Mais do que cumprir um tempo ou romper uma marca, conhecer percursos se tornou uma oportunidade de redescobrir a histĂłria de cada lugar. Assim, ele nĂŁo somente conheceu, mas viveu Roma, Londres, Leipzig, Berlim, Paris, Nova York.
Na âBig Appleâ, por exemplo, em uma das cinco maratonas que concluiu, o neurologista viveria um momento de emoção avassaladora. âQuando recebi o kit de corrida, me perguntaram se eu era mesmo mĂ©dico, e qual a minha especialidade. Estavam me convidando para fazer parte do Achilles International, um projeto que permite que pessoas com deficiĂȘncia e dificuldades motoras participem de eventos de atletismoâ, relembra, enternecido.
Naquele dia, um paciente em cama hospitalar, portador de uma doença neurodegenerativa, comandou com os olhos os movimentos da cama, tudo a partir de uma inovação tecnolĂłgica. VĂĄrios batedores se colocaram em volta dela, protegendo e orientando o homem que a dirigia, enquanto o dr. Acary acompanhava os monitores e os sinais vitais. ApĂłs quase oito horas de corrida, o grupo chegou ao Central Park sob uma sonora salva de palmas. âIsso ainda me pĂ”e lĂĄgrimas nos olhosâ, revela com a voz embargada.
âOutra experiĂȘncia fundamental para a gĂȘnese do meu pensamento foi o perĂodo que passei com os povos indĂgenas do Xingu. Existe um Acary antes e depois. Se por algum instante tive a pretensĂŁo de catequizar aquelas pessoas, foram elas, na verdade, que me transformaram. Vivi o Quarup. Compreendi o dĂ©bito com a natureza que todo ser humano traz consigo, e a necessidade, por conseguinte, de entrar em comunhĂŁo com o outro, com os elementos. A corrida foi uma das maneiras que encontrei para me reconectar com o universo.â
O IMPORTANTE Ă NĂO PARAR
A atividade mais elegante que nossa espĂ©cie jĂĄ cultivou Ă© o andar, destaca o mĂ©dico. âUma caminhada mĂnima, de 40 minutos por dia, jĂĄ causa um impacto imenso. Faz diferença para o corpo, para o coração, mas em especial para a cabeça. Correr Ă© um pouco diferente, exige mais, deve ser algo calculado dentro do que cada um pode fazer. A atividade fĂsica pode ser fonte de saĂșde ou um poço de problemas.â
âEu mesmo me envolvi em um acidente domĂ©stico, rompi o ligamento medial do joelho esquerdo e durante um bom tempo nĂŁo pude mais correr. O que jamais abandonei foi a caminhada diĂĄria.â
Hoje, aos 66 anos, em plena forma, ele retornou Ă s maratonas e frisa que nĂŁo hĂĄ idade para começar ou terminar. âCorri, em Londres, ao lado do Fauja Singh, um maratonista indo-britĂąnico que tem incrĂveis 112 anos e estreou no esporte aos 89â, recorda.
Para ele, as maratonas sĂŁo uma festa. As ruas tĂȘm segurança, hidratação a postos, organizadores que presenteiam com camisas e medalhas. Dificuldades podem ser maiores no treino, as provas sĂŁo a hora de aproveitar. O que nĂŁo significa que os treinos nĂŁo sejam divertidos – prova disso sĂŁo os grupos de corrida da EPM.
Na alma mater do dr. Acary, hĂĄ um espaço de formação de corredores e maratonistas. AlĂ©m da AtlĂ©tica Pereira Barretto, mobilizadora dos mais diversos esportes, o professor JoĂŁo AlĂ©ssio Perfeito criou o Corre EPM, iniciativa que inaugurou a prĂĄtica das corridas no cĂrculo da Medicina da UNIFESP. Embora tenha se dissolvido, o Corre EPM foi o pontapĂ© que deu origem ao Nico Runners, projeto coordenado pelo mĂ©dico Wilson Anzai que desenvolve uma sĂ©rie de açÔes sociais.
Batizado em referĂȘncia ao Nicodemus, sĂmbolo da AtlĂ©tica da EPM, o Nico Runners reĂșne vĂĄrios corredores, cada um em seu passo, nos domingos de manhĂŁ do Ibirapuera. âĂ uma oportunidade de unir medicina e esporte em um ambiente descontraĂdo, cheio de alegria e muita fofocaâ, celebra.






