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Miastenia Gravis e COVID-19

Doença neuromuscular autoimune, a miastenia gravis (MG) Ă© alvo de estudo observacional retrospectivo com 15 pacientes portadores admitidos com COVID-19 em quatro hospitais de SĂŁo Paulo, Brasil. O autor principal do trabalho (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33013676/) Ă© o especialista em Doenças Neuromusculares pelo Hospital das ClĂ­nicas da Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo, Antonio Edvan Camelo Filho.  

Ao ABNews de maio/junho de 2021, Edvan falou com exclusividade sobre o paper que teve a coordenação do professor dr. Edmar Zanoteli, uma referĂȘncia de nossa Neurologia. Confira agora na postagem a seguir . 

Como foi possível fazer um estudo de infecção pelo COVID-19 e Miastenia Gravis (MG), uma doença neurológica rara? Quantos pacientes compÔem o estudo?

A miastenia gravis Ă© uma doença autoimune que compromete a transmissĂŁo dos impulsos neuronais atĂ© o mĂșsculo, levando Ă  graus variĂĄveis de fraqueza em mĂșsculos da face, deglutição, alĂ©m de braços e pernas. Apesar de doença rara, com uma prevalĂȘncia aproximada de 20 em cada 100.000 habitantes, pudemos realizar um estudo incluindo 15 pacientes com a cooperação de 4 grandes centros de doenças neuromusculares na cidade de SĂŁo Paulo liderados pelo grupo de Doenças Neuromusculares do HCFMUSP entre março e maio de 2020. Nossa sĂ©rie de casos Ă© a maior jĂĄ publicada no mundo discorrendo sobre os desfechos de pacientes com miastenia e COVID-19. 

Qual foi a gravidade do quadro clínico da maioria dos pacientes com MG do estudo? E as principais manifestaçÔes clínicas?

O presente estudo incluiu apenas pacientes com quadro de COVID-19 confirmado por PCR e que necessitaram de internação hospitalar. Dos 15 pacientes, 13 (86.7%) necessitaram de internação em UTI. 

Onze pacientes (73,3%) necessitaram de intubação orotraqueal e os quatro restantes (26,7%) utilizaram apenas cĂąnula nasal de oxigĂȘnio. Falta de ar (93,3%), febre (86,7%), tosse (66,7%) e mialgia (46,7%) foram os sintomas de apresentação mais comuns.

Se o paciente com MG e em fase aguda da infecção pelo COVID-19 evoluir com descompensação da doença neuromuscular, é seguro fazer imunoterapia com imunoglobulina e plasmaférese?

Nosso estudo sugere que o uso de terapias imunossupressoras direcionadas ao tratamento da descompensação da miastenia durante infecção por COVID-19 Ă© seguro. Quatro pacientes foram submetidos Ă  plasmafĂ©rese e um paciente recebeu imunoglobulina, nĂŁo havendo complicaçÔes e todos com desfechos favorĂĄveis. 

Podemos concluir a partir desse estudo que a MG é fator de risco para infecção grave por COVID-19? A mortalidade foi maior neste grupo?

A mortalidade em nosso estudo dos pacientes portadores de miastenia que necessitaram de internação hospitalar devido COVID-19 foi de 30%. Estudos com outros pacientes com COVID-19 em populaçÔes gerais que são admitidos em hospitais tem mortalidades variando entre 21 a 28%. Porém, não podemos concluir que miastenia gravis é fator de risco para um quadro grave de COVID-19. Nosso estudo incluiu apenas pacientes hospitalizados e seu possível curso desfavoråvel pode estar associado a outras variåveis, como idade, comorbidades ou comprometimento pulmonar. Os pacientes falecidos de nossa coorte tinham fatores de risco semelhantes aos dos pacientes falecidos que não tem miastenia pelo COVID-19 (eram homens, tinham mais de 60 anos e/ou comorbidades). Portanto, não podemos fazer concluir que MG é um fator de risco independente para morte em pacientes com COVID-19.