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Jovem neurologista e carreira

Como o intercĂąmbio abre caminhos para o crescimento profissional

O mundo Ă© imenso, assim como as oportunidades que oferece. Sair da zona de conforto requer coragem. Uma das maneiras de se aventurar, aprender e vivenciar uma cultura diferente Ă© realizar um intercĂąmbio. 

O termo refere-se a uma troca de experiĂȘncias, nos Ăąmbitos acadĂȘmico, pessoal ou profissional. Expandir os horizontes agrega em qualquer ĂĄrea, inclusive na Medicina, claro. 

Existem diversas possibilidades para mĂ©dicos aprimorarem conhecimentos e voltarem para casa com a bagagem ampliada e qualificada, de acordo com o perfil e os recursos disponĂ­veis de cada um. Uma delas Ă© o intercĂąmbio de estĂĄgio observacional, no qual o mĂ©dico participa de todas as atividades, mas nĂŁo coloca a mĂŁo em paciente. Nesses casos, acompanha-se o serviço, observando-se como Ă© feito o atendimento, como Ă© a rotina e como sĂŁo feitas as reuniĂ”es clĂ­nicas. 

Denis Bichuetti, professor da disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de SĂŁo Paulo (EPM/Unifesp) e membro titular da ABN, pĂŽde vivenciar essa experiĂȘncia na prĂĄtica. Em 2005, ao final da ResidĂȘncia, ele passou dois meses visitando o Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos. Segundo Bichuetti, para aqueles que jĂĄ sĂŁo neurologistas, com certo grau de especialização e conhecimento, uma estadia curta Ă© o ideal: “VocĂȘ leva uma semana ou duas semanas para se ambientar, e com seis a sete semanas jĂĄ quer colocar a mĂŁo na massa novamente. EntĂŁo, para o jovem mĂ©dico, dois meses basta. Consolidou minha prĂĄtica clĂ­nica, abriu minha cabeça e pude ver como um hospital de vanguarda opera”. 

Modalidades

AlĂ©m do intercĂąmbio de estĂĄgio observacional, outra modalidade disponĂ­vel Ă© a do intercĂąmbio de estĂĄgio clĂ­nico, experiĂȘncia que permite vivenciar na prĂĄtica a rotina do local escolhido. Com maior duração, Ă© indicado para aqueles que desejam se especializar em alguma ĂĄrea. 

Com o auxĂ­lio de uma bolsa de estudos fornecida pela ABN, em 2011, ele prĂłprio passou seis meses em Barcelona, na Espanha, no Xavier Montalban, considerado um serviço de excelĂȘncia em esclerose mĂșltipla: “Na primeira vez tinha acabado de terminar a ResidĂȘncia, conhecia pouca coisa. Em Barcelona, jĂĄ era um mĂ©dico com entendimento em esclerose mĂșltipla. Fui fazer um aperfeiçoamento com quem ditava as regras, com um dos grupos mais conhecidos da ĂĄrea”, completa. 

Para conquistar a bolsa, ele passou por etapas classificatĂłrias. ApĂłs a anĂĄlise do currĂ­culo para averiguar o interesse no campo, realizou uma prova escrita, com pontuação mĂ­nima estipulada previamente, e, com a aprovação, passou por uma entrevista. Nessa fase, era necessĂĄrio apresentar um possĂ­vel projeto de pesquisa para analisar a capacidade do candidato de desenvolvĂȘ-lo no exterior.

A intensidade do trabalho foi uma das coisas que mais o marcaram. Por ser um perĂ­odo de imersĂŁo total, os seis meses pareceram dois anos de aprendizado: “Na EPM, Ă  Ă©poca, atendĂ­amos pacientes com esclerose mĂșltipla em dois dias na semana. Na Espanha, passei a atender esclerose mĂșltipla das 8 horas Ă s 17 horas, todos os dias”, enfatiza. Ele relata que, ao retornar, nĂŁo se espera que a rotina seja a mesma, mas o importante Ă© tentar adequĂĄ-la e melhorar os prĂłprios procedimentos. 

O intercĂąmbio de pesquisa Ă© o terceiro exemplo disponĂ­vel para mĂ©dicos interessados nessa troca de experiĂȘncias. Nessa modalidade, vive-se de um a dois anos no exterior para desenvolver um projeto de pesquisa. O neurologista MĂĄrio Peres viveu isso na pele ao morar na FiladĂ©lfia, nos Estados Unidos, para fazer seu pĂłs-doutorado, entre 2000 e 2001: “Tinha vontade de conhecer um serviço de alto nĂ­vel e excelĂȘncia mundial. Foi uma experiĂȘncia cultural e de aprendizado muito relevante para minha vida”. 

Por Ășltimo, existe ainda o intercĂąmbio dentro do Brasil. Apesar de as oportunidades fora do PaĂ­s serem mais requisitadas, essa opção tambĂ©m Ă© vĂĄlida. MĂ©dicos de instituiçÔes pequenas podem passar um mĂȘs ou dois meses como visitantes de intuiçÔes maiores ou fazer um aperfeiçoamento clĂ­nico. Dessa maneira, todo o conhecimento conquistado pode ser aplicado e desenvolvido ao retornar para casa. 

Desafios

            Toda experiĂȘncia carrega consigo benefĂ­cios e desafios, e em um intercĂąmbio nĂŁo seria diferente. Uma das principais barreiras Ă© a lĂ­ngua. Ir para um paĂ­s diferente e conviver com pessoas que falam outro idioma pode ser um obstĂĄculo imenso. Por essas e outras razĂ”es, Bichuetti orienta o mĂ©dico a se dedicar aos estudos antes de zarpar: “Nos trĂȘs meses que antecederam minha ida, contratei uma professora particular. Apesar da fluĂȘncia, queria estar preparado”. 

            Mesmo com um bom domĂ­nio da lĂ­ngua, o vocabulĂĄrio pode acabar dificultando: “Entender o sotaque e as nuances de piadas e gĂ­rias no dia a dia foi complicado. Os dois primeiros meses foram de adaptação”, comenta Peres sobre o inglĂȘs. 

            AlĂ©m dessa questĂŁo, outro desafio Ă© a moradia. Conforme Bichuetti, Ă© difĂ­cil escolher um local para morar sem conhecer. Para ele, o ideal Ă© planejar com antecedĂȘncia para nĂŁo ter surpresas quando chegar. TambĂ©m hĂĄ outra importante barreira, muitas vezes dissimulada: a do preconceito. “VĂĄrios mĂ©dicos, quando recebem brasileiros, acham que nĂŁo sabemos nada. Nossa dificuldade Ă© na pesquisa, mas isso nĂŁo quer dizer que nĂŁo somos bons clĂ­nicos. Em Barcelona, quando perceberam que conhecia a doença e estava ali para me aperfeiçoar, o relacionamento mudou.” 

Dificuldades Ă  parte, vale demais a pena: “É fundamental estudar, ter paciĂȘncia e firmeza de seguir adiante naquela proposta”, ressalta Peres. Os benefĂ­cios proporcionados por um intercĂąmbio sĂŁo incontĂĄveis, em diversos Ăąmbitos da vida. 

Profissionalmente, Ă© uma Ăłtima oportunidade para aprimorar a parte cientĂ­fica da ĂĄrea escolhida, incluindo a prĂĄtica mĂ©dica e os procedimentos. No pessoal, o aprendizado e a troca cultural sĂŁo intensos. Peres aconselha: “A questĂŁo financeira talvez seja um grande empecilho, mas invistam e nĂŁo tenham medo, porque os benefĂ­cios sĂŁo enormes”. 

            Planejamento. Essa Ă© uma dica unĂąnime daqueles que jĂĄ se aventuraram em sair da zona de conforto: “Acredito que qualquer experiĂȘncia fora de seu serviço original Ă© bem-vinda. Visitar outro hospital no Brasil ou fora abrirĂĄ a cabeça para melhorar o que se faz em casa”, conclui Bichuetti. 

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COMO CONSEGUIR BOLSAS

As duas instituiçÔes governamentais que fornecem bolsas de estudo para quem se interessa em expandir conhecimento sĂŁo o Conselho Nacional de Desenvolvimento CientĂ­fico e TecnolĂłgico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de NĂ­vel Superior (Capes). O intuito dessas plataformas Ă© auxiliar brasileiros e dar suporte Ă  formação desses profissionais, alĂ©m de promover o desenvolvimento cientĂ­fico e tecnolĂłgico nacional por meio da internacionalização da ciĂȘncia e tecnologia brasileiras. 

Segundo a Capes, as bolsas sĂŁo distribuĂ­das “ressaltando os mĂ©ritos acadĂȘmico e cientĂ­fico, sempre pautado pela qualidade e relevĂąncia das propostas”. De acordo com os dados divulgados no site da instituição, as regiĂ”es Sul e Sudeste detĂȘm a maior concentração de bolsas de estudo, em uma faixa que varia de 3.437 a 24.898. Em 2019, na ĂĄrea de CiĂȘncias de SaĂșde, na qual a Medicina se encaixa, foram concedidas 6.055 bolsas de mestrado, 6.453 de doutorado e 875 de pĂłs-doutorado.