Desde o inĂcio da pandemia, os neurologistas que trabalham com ĂȘnfase em doenças desmielinizantes, como esclerose mĂșltipla (EM) e neuromielite Ăłptica (NMO), compartilhavam uma sĂ©rie de dĂșvidas importantes para o adequado manejo clĂnico da doença. Alguns exemplos:
Os tratamentos imunomoduladores e imunossupressores poderiam estimular a suscetibilidade ao Sars-CoV-2?
A COVID-19 seria mais grave nos pacientes portadores de EM ou de NMO em tratamento, resultando em desfechos negativos?
A COVID-19 seria ainda capaz de piorar o quadro neurolĂłgico preexistente?
Em busca de respostas com respaldo cientĂfico a esses e outros pontos, o REDONE.br (Registro Brasileiro de Doenças NeurolĂłgicas), por iniciativa de sua coordenadora, dra. Doralina Brum, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) da Unesp, reuniu mais de 70 pesquisadores de diversos regiĂ”es brasileira. Eles rapidamente se puseram a trabalhar em Ăąmbito nacional, envolvendo em torno de 50 centros. O fruto do trabalho refletiu no artigo nominado âIncidĂȘncia e evolução clĂnica da doença coronavĂrus em uma coorte de 11.560 pacientes brasileiros com esclerose mĂșltiplaâ publicado na Multiple Sclerosis Journal. O artigo abordando o impacto da COVID-19 no espectro das desordens da neuromielite Ăłptica estĂĄ na fase final de revisĂŁo tambĂ©m em revista de qualidade indiscutĂvel.
Adicionalmente, o REDONE.br fez parceria com entidades internacionais em uma iniciativa global de compartilhamento de dados em pacientes com esclerose mĂșltipla e COVID-19, passando a figurar entre uma dezena de registros europeus e da AmĂ©rica Latina. Essa parceria tambĂ©m tem resultado em publicaçÔes como COVID-19 in people with multiple sclerosis: a global data sharing initiative, no MĂșltiple sclerosis Journal. Outros artigos jĂĄ estĂŁo submetidos, em revisĂŁo no momento.
Em um curto intervalo, vimos que os pacientes com esclerose mĂșltipla evoluĂam de maneira similar ao restante da população brasileira, mesmo em uso de medicação durante a pandemia. Na primeira anĂĄlise, a amostra foi pequena, precisamos avançar para confirmar este resultado em uma amostra de pacientes com EM e COVID-19â, pontua a dra. Doralina.
Para alcançar esses resultados, houve ação determinada e pioneira dos neurologistas para alimentar a base de dados do REDONE.br com informaçÔes sobre pacientes com esclerose mĂșltipla e neuromielite Ăłptica infectados pela COVID-19, a fim de compreender melhor a infecção e desenvolver diretrizes adequadas.
Capilaridade
Todos os resultados foram inseridos em um mapa interativo e sincronizados entre os colaboradores das diversas regiĂ”es do paĂs, possibilitando a compreensĂŁo ampla do avanço da doença no cenĂĄrio nacional.
âPrecisĂĄvamos de informaçÔes que nĂŁo existiam, ao menos nĂŁo organizadas. O REDONE.br foi a ferramenta-chave para responder Ă s perguntas da sociedade brasileira, recorrendo a meios para alĂ©m dos estudos internacionais que nĂŁo refletiam a realidade da nossa populaçãoâ, ressalta dr. Felipe von Glehn, coordenador do Departamento CientĂfico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e integrante do projeto.
CiĂȘncia
A plataforma foi alimentada constantemente com dados epidemiolĂłgicos, clĂnicos, presenças de surtos e gravidade da doença. Segundo o dr. von Glehn, foi um ano de conquistas em termos de captação de dados e modernização da ferramenta digital. Enfim, possibilitou-se uma interface mais intuitiva e fĂĄcil de navegar, disponibilizada em diferentes sistemas operacionais.
Ainda de acordo com ela com a dra. Doralina, a vocação do REDONE.br é atuar em ùmbito nacional, com amostra representativa da população e respondendo questÔes simples e objetivas para as quais hå uma lacuna de conhecimento.
âEsses elementos sĂŁo uma fĂłrmula bem-vinda Ă comunidade cientĂfica e Ă literatura atual, pois estamos na era da compreensĂŁo das doenças a partir de big dataâ, pontua. O assunto pode ter sido bem estudado em outras populaçÔes, caucasianas, africanas ou asiĂĄticas, mas nĂŁo foram bem esclarecidas em populaçÔes miscigenadas como a brasileira. Pode tambĂ©m ser de um assunto emergente como a COVID-19, no qual a comunidade cientĂfica tinha todas as perguntas sem respostas, por ser algo novo e que assolou o mundo, quase simultaneamente. Ter uma plataforma online, 24/7, Ă disposição dos neurologistas em Ăąmbito nacional Ă© um avanço para o modo como abordamos a ciĂȘncia no Brasilâ.
Para dra. Maria Fernanda Mendes, coordenadora do AmbulatĂłrio de Doenças Desmielinizantes da Santa Casa de SĂŁo Paulo e pesquisadora do projeto, a publicação dos dois estudos em revistas cientĂficas de referĂȘncia Ă© uma vitĂłria para o grupo e, principalmente, para a Academia Brasileira de Neurologia.
âFomos elevados enquanto entidade de representatividade qualificada nas publicaçÔes internacionaisâ, destaca.
Ainda de acordo com ela, a participação no REDONE.br significa ter um olhar voltado para a condição de saĂșde no Brasil, fazendo indagaçÔes aos nossos pacientes que nĂŁo sĂŁo feitas em outras partes do mundo.
Dra. Lis Campos, professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do programa, comenta que âo projeto veio para mostrar que, mesmo em um paĂs tĂŁo grande e distinto, Ă© possĂvel organizar trabalho conjunto rico e promover produção cientĂfica de relevĂąnciaâ.
Caminhos
O esforço em dirimir dĂșvidas dos neurologistas Ă© um desafio diĂĄrio, que nĂŁo se esgota, para os membros do projeto. Com o aumento da testagem e o inĂcio da vacinação, agora a ideia Ă© investir em estudos que tragam respostas sobre o desenvolvimento da infecção nos pacientes que tiveram a confirmação do diagnĂłstico, alĂ©m de analisar a resposta da vacina, aumentando a amostra pesquisada.
Dra. Nise Alessandra Souza, vice-coordenadora do DC de Neuroimunologia e integrante do projeto, acentua que o Brasil Ă© o segundo paĂs mais acometido pela COVID-19: âEssa iniciativa Ă© de extrema importĂąncia. A confiabilidade e a facilidade da plataforma do REDONE.br foram essenciais para os primeiros estudos, e queremos avançarâ.
Para dra. Doralina, o foco principal do registro Ă© dialogar com o MinistĂ©rio da SaĂșde em prol da boa prestação de serviços em saĂșde.
âTemos uma plataforma robusta, acessĂvel e compartilhada a todos os neurologistas, colaboradores e pesquisadores. Queremos contribuir Ă formação de polĂticas pĂșblicas com informaçÔes representativas sobre nossa populaçãoâ, afirma.
O presidente da ABN, dr. Carlos Rieder, jĂĄ registrou inĂșmeras vezes o valor dessas açÔes e a relevĂąncia de se fortalecer permanentemente o REDONE.br:
âO DC de Neuroimunologia estĂĄ colhendo os primeiros frutos, e esse Ă© um incentivo. Temos investido para que, cada vez mais, outros grupos de trabalho em diferentes ĂĄreas tenham as condiçÔes necessĂĄrias para desenvolver projetos de relevĂąncia para o bem-estar e qualidade de vida da sociedade brasileiraâ.
Como pode ser observado, o comprometimento da ABN com o projeto REDONE.br é uma realidade que permitiu que chegasse até aqui e terå boas novidades em futuro próximo.
Passos Futuros: continuidade do projeto COVID19 e outros grupos de pesquisa
O projeto COVID-19 se manterĂĄ atualizando os dados em perĂodos determinados de modo a gerar novos resultados sobre os desfechos da doença na EM e na NMO, focando ainda em outros aspectos relevantes relacionados, como as vacinas e possĂveis eventos adversos neurolĂłgicos.






