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08/02/2018

Os médicos testam uma nova técnica contra o Alzheimer. Pacientes receberam um marca-passo em área do cérebro responsável por resolução de problemas e organização

O Sul

Já faz mais de duas décadas que a estimulação cerebral profunda, conhecida como marca-passo cerebral, é usada com sucesso para controlar os sintomas do mal de Parkinson e melhorar a qualidade de vida de quem tem a doença. Era de se esperar, portanto, que a técnica fosse testada para outras doenças, como demências e até obesidade. O tratamento – um implante de eletrodos no cérebro, ligados a um marcapasso implantado na pele na altura da clavícula – se baseia na ideia de que a ativação dos neurônios por meio da estimulação profunda possa trazer melhoras cognitivas e comportamentais e ajudar a reparar os danos funcionais.
 
Na aposta da técnica contra o mal de Alzheimer, um grupo de médicos de Toronto, no Canadá, foi pioneiro e relatou, em um estudo de 2012, um incremento no metabolismo cerebral e melhora clínica após um ano. O objetivo era retardar a progressão da doença, não revertê-la. Agora, uma pesquisa publicada na revista médica especializada “Journal of Alzheimer’s Disease” mostra o resultado de uma nova iniciativa de pesquisadores da Universidade do Estado de Ohio (EUA) contra a doença.
 
Eles testaram um novo alvo no cérebro para receber a estimulação: o lobo frontal. Segundo Douglas Scharre, coautor do estudo e diretor do instituto de neurologia da universidade, essa região é responsável pelas nossas habilidades de resolução de problemas, organização e planejamento, e sua estimulação causou uma desaceleração no declínio dos pacientes na comparação com um grupo de pessoas que não receberam esse tratamento. O estudo é pequeno, mas mostrou que é seguro.
 
Três pacientes com mal de Alzheimer em estágio moderado receberam o marca-passo cerebral e foram avaliados depois de mais de 20 meses. Não houve efeitos adversos sérios ou permanentes. Uma das voluntárias era LaVonne Moore, 85. Segundo os autores, quando ela começou a participar do estudo, em 2013, já não cozinhava mais. Depois de dois anos de tratamento, voltou a preparar refeições simples e a selecionar suas próprias roupas.
 
Eduardo Mutarelli, neurologista do Hospital Sírio-Libanês, diz que é importante notar que a estimulação não fez com que os pacientes melhorassem, mas que o quadro parasse de progredir – resultado mais comum no tratamento da doença, que ainda não tem cura. Ele faz outra ressalva: os três pacientes que participaram do estudo utilizaram antidepressivos, o que pode ter participação na melhora cognitiva, mesmo que isso tenha sido negado pelos autores.
 
De toda forma, o resultado do estudo é positivo. “Com ele, nós temos chance de fazer mais pesquisa com estimulador, porque não houve reações adversas”, diz. A Academia Brasileira de Neurologia já afirmou em nota que o tratamento é experimental, que os estudos realizados até hoje envolveram poucos pacientes e que não há dados consistentes sobre o acompanhamento desses voluntários a longo prazo. Falta ainda saber se a estimulação pode, de fato, agir sobre o acúmulo de proteínas no cérebro associadas à morte progressiva de neurônios.

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